domingo, setembro 26, 2010

2 Edições do Jornal "Pula Catraca" - MPL Joinville


O MPL-Joinville (Santa Catarina) já lançou duas edições de seu jornal "Pula Catraca", que discute problemas e soluções para o transporte público. Baixe o número 1 e o número 2, e acompanhe a luta do MPL-Joinville no blog: http://mpljoinville.blogspot.com

A construção de uma ideia




por Bruno*

Percebi que a organização do MPL ia além de participar de atos em ocasião de aumento. Que ali, na verdade, estava sendo discutida uma proposta de transporte público para todos

Eram aproximadamente 19h do dia 9 de março de 2010. Joinville completava 159 anos de fundação e, como de costume, acontecia o desfile do aniversário da cidade. Na Avenida José Vieira uma fila enorme com várias entidades que participariam do evento. Entre elas, um grupo de estudantes e trabalhadores com panos tapando a boca e flores que seriam distribuídas ao público. Eles criticavam a postura “não democrática” do atual prefeito, por não terem o direito de se manifestar em frente ao palanque das autoridades. Do momento em que entraram no desfile até o final da avenida, seriam aproximadamente 850 metros de protesto. Enquanto caminhavam pela pista, aplausos ecoavam pelas ruas da região. Pouco se ouviu da leitura da carta que estava sendo declarada por um militante através do megafone e repetida pelos manifestantes. As palmas e gritos de parabenização abafavam a voz do “garoto” e o eco que o seguia. O prefeito, assim como outras autoridades, aplaudia também – ao menos tentava mostrar ao público, apesar das constantes ações de desrespeito, um apoio aos movimentos sociais. Um desses grupos, que há tempo fora vaiado e tratado como organizador de ideias ilegais, estava a poucos dias de completar seu quinto ano de existência em Joinville. Movimento jovem, mas que carregava – e ainda carrega – uma grande carga de lutas e debates, e que saiu do desprezo ao respeito.

O início

Dia 28 de março de 2005. No mesmo dia, uma cantora chamada Stefani Joanne Angelina Germanotta completava seus 19 anos. Meia década depois ela bateria recordes de visualização no site Youtube e seria considerada um ícone da música pop com o nome Lady Gaga. Ainda naquela segunda-feira, possíveis fãs do ator Peter Ustinov choravam o primeiro aniversário de sua morte. Quinhentos e setenta e quatro anos antes, em 1431, Thomas de Courcelles fazia a leitura dos 70 artigos da acusação de Joana d’Arc. Mas, certamente, para quatro jovens de Joinville, aquele final de março de 2005 seria marcado por outro motivo. Eles e mais alguns militantes de um movimento que há pouco fora criado em Florianópolis se reuniram em uma casa no bairro Guanabara. “Pelos meus cálculos, tudo indica que era dia 25 de março”, comenta um dos estudantes. Não importa a data que foi marcada na história, o importante é que naquele dia nascia um movimento que daria força às discussões sobre transporte coletivo na cidade: o Movimento Passe Livre Joinville.

Em 2003, em meio às manifestações contra o aumento da passagem de ônibus, um jovem chamado A., passando a notar com mais interesse os problemas sociais, começou a fazer parte da juventude de um partido político, Juventude Revolução, do PT, que até então era considerado de esquerda. Seu interesse pela mudança continuou e logo em seguida fundou, com outros alunos, um grêmio estudantil no colégio onde estudava. A principal bandeira que carregava era a do “passe livre estudantil”. Em 2004, aproximadamente 400 estudantes foram às ruas, dessa vez pedindo o passe livre. Não muito longe, em Florianópolis, um movimento estudantil e popular conseguiu barrar o aumento do transporte coletivo, num ato conhecido como “Revolta da Catraca”. A principal organização que contribuiu para isso foi a JRI - Juventude Revolução Independente -, uma cisão do movimento do qual A. fazia parte. O estudante começou a se interessar pelo movimento que estava acontecendo em Florianópolis. Entrou em contato com B., um dos principais líderes da JRI. Conversas através da internet trouxeram mais dúvidas ao estudante e o fizeram perceber a falência das organizações em Joinville.

Após o afastamento do PT, o estudante se aproximou mais do movimento de Florianópolis e convidou B. e outros militantes para discutirem o movimento em Joinville. Encontraram-se em frente à Prefeitura e de carro seguiram até a casa onde seria a reunião. Registros dizem que era dia 28 de março de 2005. A. acredita que era dia 25. “Lembro que era sexta-feira santa, pois comemos peixe”, comenta. Depois do almoço, A., dois amigos e seu irmão iniciaram a conversa sobre o movimento. Naquele dia, criou-se um pré-núcleo do Movimento Passe Livre na cidade.

Em suas anotações, A. descreveu o dia:

“…camaradas de Florianópolis B., C. e D. vieram até Joinville por saberem dos andamentos das questões sobre o Passe Livre em minha cidade. Passei um dia agradável numa discussão com os camaradas do MPL, mais o E., o F. e o G. Conversamos sobre a expulsão da JR, tanto minha quanto de B., e dos andamentos da campanha. E. e eu resolvemos prolongar as discussões na JR de Joinville, esclarecendo nossa divergência e depois disso formaríamos o MPL Joinville. Para tanto os camaradas de Florianópolis nos forneceram apoio. Esse dia foi, talvez, o dia do nascimento de um movimento sem precedentes em Joinville.”

Pergunto qual o embasamento teórico que tinham para discutir o transporte. A. responde sem duvidar: “Nosso embasamento era muito precário. Não tínhamos uma visão do conjunto da cidade, a importância mais geral do transporte. O que nos limitava na nossa perspectiva, inclusive. Basicamente, o MPL consistia em lutar pela aplicação da constituição brasileira no que diz respeito à garantia do direito a transporte ao jovem em idade escolar. Ampliávamos o conceito agregando a ideia de cultura e lazer também. Mas basicamente era isso”. Naquela época, o movimento lutava apenas pelo passe livre estudantil. De lá pra cá, o hoje estudante do curso de Filosofia, da UFPR, amadureceu muito, com a ajuda da experiência na militância.

Atualmente, morando em Curitiba, A. não faz mais parte do movimento. Sentiu uma “limitação” do movimento em discutir apenas um assunto. Hoje faz parte de outro partido político, o PSOL, “não como substituto do movimento social, mas como organização específica capaz de encaminhar outras lutas e ter um acúmulo estratégico, do futuro, o qual o movimento social, via de regra, não tem”.

Apesar de não estar ativo no movimento, reconhece seu valor. Percebe também o quanto a população e as autoridades respeitam. A. lembra de um momento, quando o jornal A Notícia publicou uma matéria com o título: “Passe Livre é inconstitucional”. Isso gerou revolta nos estudantes, que foram à Câmara de Vereadores, pois a matéria referia-se ao arquivamento de uma lei do Passe Livre. No entanto, nas eleições municipais de 2008, o Passe Livre passou a ser proposta de campanha de alguns candidatos. De ilegal para proposta de campanha. “É um avanço. Pense-se o que quiser. Mostra que há uma hegemonia da ideia, de um grupo pequeno de pessoas ela passou, através de movimentos contínuos, a convencer outros setores sociais, inclusive setores do establishment político. E não só isso: o ‘pessoal’ do Passe Livre é reconhecido como lutador, o que também traz respeito, como uma juventude não conformada. É uma visão que acredito que muita gente compartilhe, vide o desfile de 9 de março”, completa.

Ameaças e Perseguições

No dia 26 de novembro de 2005 aconteceu o dia nacional de luta pelo passe livre. O MPL de Joinville organizou um ato na Praça da Bandeira. Os estudantes seguiram até à Câmara de Vereadores. Lá, a Polícia Militar tentou evitar a entrada dos manifestantes. Não adiantou. “Entramos na Câmara. Os dias seguintes foram de pavor. Homens à paisana passaram a perseguir militantes do movimento. As ameaças chegavam via telefone, nas casas, e ocorreram perseguições nos caminhos de casa, até à escola ou universidade. Felizmente, nos mostramos fortes e resistimos, inclusive com o apoio da H., advogada do Movimento Nacional de Direitos Humanos”. Relato feito a mim por I., que na época era estudante e hoje é professor de História. O militante chegou a ter que ficar um tempo afastado do movimento. Segundo ele, ficou sabendo, através de um dos seguranças que são contratados pelas empresas de ônibus, que eles haviam sidos contratados para agredi-lo. “Felizmente esse segurança era próximo de um grande amigo, que acabou relatando o caso”. Para I., ameaças e perseguições são ações comuns adotadas por quem “deseja manter a exploração na cidade”. “É a saída do desespero de quem pretende proteger o seu capital, nem que seja proteção do capital feito com a restrição do direito de ir e vir na cidade”, completa. Para ele, as ameaças só acabarão quando o transporte coletivo for realmente público e o controle for feito por quem faz a cidade. “Não faço referências aos empresários e à classe política, falo das pessoas”.

I. entrou no Movimento Passe Livre logo no início, e convidou alguns amigos da Faculdade. Antes, já participava da luta contra os aumentos da passagem de ônibus nos anos anteriores. Isso na época em que fazia parte do Centro Acadêmico Livre de História Eunaldo Verdi, do curso de História da Univille. Mas, segundo ele, sua visão crítica já vinha de antes. No início da adolecência, envolvido com culturas urbanas, uma delas o punk, começou a questionar as contradições políticas, econômicas, culturais e sociais “alimentadas pelo Estado e pelo capitalismo”.

Em dezembro de 2001, já trabalhando na fábrica CIPLA, deixou de receber o décimo terceiro, assim como outros trabalhadores, o que acarretou em uma greve espontânea em janeiro do ano seguinte. Sem o envolvimento do Sindicato dos Plásticos, 79 trabalhadores grevistas foram demitidos. I. foi um deles. Depois disso o sindicato “acordou”, corruptos foram expulsos e, com apoio de setores do PT, iniciou-se uma nova luta no final de 2002. “Mesmo não trabalhando mais na empresa, sem manter qualquer ligação ideológica a corrente interna do PT e não olhar com bons olhos a direção sindical, estive envolvido no processo de construção de uma nova greve e prestando solidariedade aos trabalhadores da CIPLA. Eu lia muita coisa dos sindicalistas revolucionários do IWW [Industrial Workers of the World, uma organização anarco-sindicalista especialmente forte nos Estados Unidos no primeiro quartel do século XX]. Lá se dizia que quando um trabalhador estiver sendo explorado, todos os demais deverão prestar solidariedade”, explica o militante.

O resultado foi a vitória dos trabalhadores, passando o controle da fábrica para os operários. “No transcorrer ocorreram diferentes descaminhos. A ‘direção’ passou a seguir para onde queria. Nisso tudo, a lição foi perceber o poder da classe trabalhadora, servindo como um dos marcos da minha vida, potencializando a importância da dedicação às lutas sociais”.

Hoje, I. não faz mais parte do movimento, mesmo acreditando nos seus ideais. Pergunto sobre seu amadurecimento. O professor responde que quando entrou no MPL, tinha uma visão individual sobre os problemas da cidade. Debatendo com outras pessoas, abriu seu horizonte e conheceu novas realidades. Também aprendeu a “falar em público, discutir sem a grosseria. Não era muito aberto a ouvir ideias diferentes. Ali foi preciso aprender”.

I. sente que nos últimos três anos o movimento começou a ser mais respeitado. “Éramos taxados como jovens estudantes, mimados e bem alimentados. Ao menos é o que lembro nas falas dos famigerados e podres Beto Gebaille, Luis Veríssimo e bobinho Neves”. O historiador ressalta ainda a resistência que existia da população com a ideia de Passe Livre. “Felizmente, essa configuração se alterou”, comemora.

Hoje

O Movimento Passe Livre Joinville, hoje, não luta apenas pela gratuidade aos estudantes, mas para toda população. Segue-se a linha de pensamento do projeto Tarifa Zero, que foi implementado em um bairro de São Paulo pelo então secretário dos Transportes, Lúcio Gregori, na gestão municipal da ex-prefeita Luiza Erundina (1989-1992). O pensamento é utilizar um imposto, onde o mais rico paga mais, o mais pobre paga menos e os que não tiverem condições não pagam. Assim, o transporte não precisaria ser pago apenas pelos usuários, mas por toda sociedade – assim como a saúde e a educação. Mesmo dando certo, o Tarifa Zero caiu. Os governos posteriores acabaram com o projeto.

Nesse sentido, J., conhecido como K., militante do movimento, acredita que houve um grande amadurecimento. “Amadurecemos desde nossa organização interna até nossas táticas de luta nas ruas. Também hoje pensamos uma proposta de transporte para a cidade, bem fundamentada e estruturada”, explica. O MPL também defende a participação dos usuários na administração do transporte coletivo. “Afinal, são essas pessoas que usam o transporte diariamente, nada mais justo que elas opinarem sobre o funcionamento da empresa responsável por isso”.

Hoje, é fundamental em toda discussão sobre transporte público a presença do Movimento Passe Livre. “Eu acho que o MPL tem uma característica muito interessante: a visão de usuários sobre o transporte”, comenta. “No meu ponto de vista isso é o que mais deveria ter peso nessa discussão”. Mas K. entende que tem passageiros que não têm a mesma visão que eles. “Estamos aqui para debater e construir um transporte coletivo melhor. Os apoios que recebemos fazem-nos crer que estamos caminhando para a direção certa”.

Questionado sobre ser um sonhador, o militante foi direto: “Não, não sou. Sou um realista. Temos um problema real no transporte coletivo e estamos lutando e propondo uma solução real para essa dificuldade. Sonhador e idealista, para mim, é quem acredita que o transporte pode continuar como está”.

K. é um dos militantes mais antigos no movimento. Percebeu o amadurecimento de perto. No dia 9 de março deste ano percebeu que as pessoas que aplaudiam o movimento, no momento do desfile, nada mais estavam fazendo que aplaudindo seus próprios ideais. “Isso, no meu ver, é reflexo de que o movimento está realmente do lado da população e ela percebe isso”. O estudante de design sentiu um entusiasmo ao ver o público aplaudindo no momento das falas. “Significa que estamos acertando a mão”. Para ele, esse respeito que “cresce a cada dia” é fruto de um trabalho do ano inteiro. “As palestras, panfletagens, mostras de vídeos. Existe um trabalho de base para que as pessoas entendam o movimento e lutem pelos seus direitos”.

O militante vê dois motivos para esse crescimento: “Primeiro, o fato de ter mostrado que o movimento existe e luta pelos direitos da população, independente do partido que está no governo. O segundo motivo é que o movimento conseguiu ‘abrir’ um diálogo na sociedade, sobre pautas ligadas ao transporte público”. K. lembra de um tempo em que eram tratados como “vândalos” e “baderneiros”. Inclusive, como resposta, criaram o canto: “Não sou baderneiro. Eu só não quero que roubem meu dinheiro”.

Novos Membros

Metade de 2009. A passagem havia subido para R$ 2,30. Manifestantes ocuparam as ruas, como sinal de protesto. Eles reivindicavam que o aumento do passe fosse revogado. Segundo representantes da própria Prefeitura, não existia fiscalização sobre os valores apresentados pela planilha de custos das empresas de ônibus. Duas estudantes secundaristas passavam pelo terminal central e perceberam uma movimentação. Era a Frente de Luta pelo Transporte Público, da qual o Movimento Passe Livre fazia parte. As duas decidiram “ver o que tava rolando”. Percebendo o motivo, entraram junto no protesto. Uma delas era L.

“Senti-me um pouco insegura nos primeiros momentos, porque nunca tinha participado de nada desse tipo, mas sabia que estava fazendo o certo”, fala a estudante. Mas isso só no começo. L. continuou a participar das manifestações e logo se aprofundou nos debates em torno do Passe Livre. Começou a participar das reuniões do MPL e sentiu o que lera dos princípios do movimento e entendeu que a luta era extremamente coerente. “Aí nasceu”, diz ela, “minha vontade de reivindicar por um transporte público, de qualidade, gratuito e inclusivo”.

Logo no início já se envolveu diretamente. Começou a fazer panfletos e cartazes de divulgação dos atos que estavam acontecendo, ajudando assim na organização do movimento. “Isso foi quando passou o alvoroço da ocupação da Câmara de Vereadores. Aí fui perceber que a organização do MPL ia além de participar de atos em ocasião de aumento. Que ali, na verdade, estava sendo discutida uma proposta de transporte público para todos”.

Decidi questioná-la sobre seu “sonho”. Talvez, novata, pudesse contradizer-se na argumentação; mas não, respondeu bonito: “Não me sinto uma sonhadora. Sei que a luta é justa, é coerente e é possível conseguir melhoras fundamentais no transporte coletivo por meio da organização. Se militar e protestar não fizessem diferença, não seria necessário escolta policial, não precisaria de repressão, a Prefeitura não nos chamaria para reunião”.

No dia 9 de março, L. foi, pela primeira vez, desfilar no aniversário da cidade, mas como protesto. No começo, sentiu receio, não sabia como ia se comportar a população. “Fiquei com medo que as milhares de pessoas que estavam vendo o desfile não aprovassem o nosso ato”, confessa. Ela se surpreendeu ao perceber que quanto mais próximo do palanque chegavam, mais fortes eram as palmas. “Arrepiei-me toda. A emoção foi muito grande. Era como se estivessem agradecendo pela militância, e ao mesmo tempo como se a gente estivesse representando todos eles naquele momento”. Nesse momento, a estudante conseguiu uma prova concreta de que estava lutando por um ideal de todos aqueles que “agradeciam” o ato.

Mesmo estando há menos de um ano no movimento, L. tem convicção de que os ideais do Movimento Passe Livre são coerentes e que é possível fazer mudanças no transporte coletivo. “Percebo que a cada dia a discussão evolui e aprendo muito”, fala. Não só no assunto sobre transporte foi o amadurecimento da garota. Depois que começou a militar no MPL, sua visão política se modificou e se ampliou muito. L. diz que várias vezes se pega tentando analisar outras questões da sociedade, como analisa o transporte coletivo através do Movimento Passe Livre. “Passei a me ligar mais em política e prestar atenção em outros movimentos sociais. Senti-me à vontade para participar de outras coisas, até tentei organizar um grêmio na escola em que eu estudava”. Além do mais, segundo ela, aprendeu a ouvir mais o que as pessoas têm a dizer. Começou a pensar em grupo. “Tornei-me menos egoísta”, explica. “Logo depois que passei por tudo isso. Percebi que meus atos e minha consciência são muito importantes e acabei me tornando vegetariana”, conta L., ao ligar o fato do bem estar humano e o bem estar animal.

“Quem estiver interessado em conhecer o movimento, entre em contato no orkut, blog ou twitter”. Todo mês é feita uma reunião para novos membros, onde é apresentado o movimento, suas lutas e seus ideais.

[*] Do Movimento Passe Livre de Joinville.

Retirado de http://passapalavra.info/?p=24351

quarta-feira, setembro 22, 2010

Unb no dia mundial sem carro




22 DE SETEMBRO - UnB no DIA SEM CARRO
Local: Auditório da Reitoria
Programação:
9h00 – Abertura pelo Reitor da UnB, Prof. José Geraldo de Sousa Jr.
9h30 – Mesa Redonda: MOBILIDADE SUSTENTÁVEL NA UnB- O Plano de Circulação para o Campus Darcy Ribeiro: José Augusto AbreuSá Fortes (Professor do Programa de Pós-Graduação em Transportes)
- A institucionalização do Projeto Bicicleta Livre: Yuriê Batista César(Membro do Projeto Bicicleta Livre)
- A mobilidade no Plano de Obras da UnB: Pedro Murrieta dos Santos Neto
(Decano de Administração)
14h30 – Debate: A MOBILIDADE URBANA COMO DIREITO SOCIAL- Expositor: Lúcio Gregori (Ex-Secretário Municipal de Transportes de S.Paulo)
- Debatedores: João Alencar Oliveira Jr. (Ministério das Cidades),
Nazareno S. Afonso (Associação Nacional dos Transportes Públicos),
PauloHenrique (Paíque) Santarém (Movimento Passe Livre – DF)
Promoção: DAC - Decanato de Assuntos Comunitários

terça-feira, julho 13, 2010

Oficina: "Elementos essenciais do transporte na sociedade capitalista"


Movimento Passe Livre- Df convida para a oficina:
"Elementos essenciais do transporte na sociedade capitalista"

A oficina introduz alguma das nossas reflexões sobre o funcionamento do transporte na nossa sociedade, chamando todo mundo pra pensarmos juntxs sobre soluções e desejos para as nossas cidades.

Quinta Feira (15-07), no Sindágua (Ed. Venâncio 5, sala 208), Conic.

segunda-feira, julho 05, 2010

Protesto na Rodoviária (plano) Quinta-feira(08)

Estamos tentando fortalecer os núcleos nas cidades satélites para podermos voltar a fazer protestos nelas com toda a força, junto com os atos dos outros locais. Se você está interessada-o em fazer parte do núcleo do mpl na sua localidade, compareça as reuniões para ir conhecendo outrxs militantes da sua região e posteriormente formarem um núcleo lá.
Estamos renovando nossa lista de email. Para entrar ou se recadastrar mande seu email para passelivredf@lists.riseup.net até o dia 18 de julho.
Atenciosamente Márcia Pinheiro Lopes.



quinta-feira, junho 24, 2010

Quando a pressão cai sob o metrô...

A secretaria de transportes colocou o metrô para funcionar com sua capacidade máxima, para tapar o buraco da paralisação dos-as rodoviários-as.
Mas la também há problemas...

abaixo, texto feito pelo sindicato das-os metroviárias-os sobre a situação corrupta da terceirização das bilheterias e a luta do mesmo a favor do patrimônio
público.

"Mesmo com acordo judicial firmado em 2004 entre Ministério Público e Metrô-DF que proíbe terceirização das áreas fim da companhia e prevê multa de R$1.000,00 (mil reais) por empregado terceirazado contratado, o Metrô/DF segue com a ilegalidade e já até divulgou o nome da empresa vencedora da COMISSÃO ESPECIAL DE LICITAÇÃO CONCORRÊNCIA Nº 06/2008 em publicação no diário oficial do dia 23 de outubro de 2009 na página 37.Apesar de todo o escândalo vinculado na mídia recentemente com desvio de verbas públicas, o Metrô-DF não se preocupa com o pagamento de multa dessa ação, pagamento esse que será feito também com dinheiro público. Fora os gastos com a multa de descumprimento de acordo judicial, o Metrô-DF desembolsará nada menos que R$1.666.000,00 (um milhão seiscentos e sessenta e seis mil reais) por mês para pagar a empresa vencedora da licitação para administrar os lucros das bilheterias do Metrô/DF e contratar o novo pessoal. Para se ter uma idéia, hoje, o Metrô gasta R$ 66.300,00 (sessenta e seis mil e trezentos reais) por mês para manter os atuais empregados trabalhando nas bilheterias a título de quebra de caixa. Caso o Metrô contratasse os 156 aprovados para o cargo de Agente de Estação, ele gastaria R$ 287.672 (duzentos e oitenta e sete mil seiscentos e setenta e dois reais) por mês. Comparando com a terceirização, restariam mais de R$ 1.245.000 (um milhão duzentos e quarenta e cinco mil reais) que poderia ser investido em demandas reais da sociedade.O Sindicato da categoria informou ao Ministério Público as intenções do Metrô-DF e o mesmo já enviou uma petição ao tribunal solicitando ao Juiz que elevasse o valor da multa para R$1.000,00 por funcionário e por dia de descumprimento. Porém o judiciário marcou uma audiência apenas para o dia 23 de fevereiro de 2010. Enquanto isso o Metrô-DF prossegue com as ilegalidades."


SINDMETRÔ/DF

quinta-feira, junho 10, 2010

Manifestação dia 11 de JUnho!

vem pra luta, vem:
SEXTA-FEIRA, às 18h., na RODÔ.

!!Manifestação contra a restrição do passe livre e rumo à tarifa zero!!

É muito importante a participação de todas e todas, com cartazes, faixas,
nariz de palhaço, bateria, etc.!

Não vamos deixar o governo roubar nossos direitos!
Vamos lutar para que eles se ampliem!

movimento passe livre- DF

segunda-feira, maio 31, 2010

domingo, maio 30, 2010

Reflexões Catraqueiras


Não queremos apenas ir para escola e para casa, como se nesse trajeto estivesse todo o nosso processo educativo. Não queremos ficar horas na Difícil, enfrentando filas enormes apenas para saber que nosso transporte não é prioritário pros que estão lá em cima. Não queremos passe livre restrito. Não queremos que nosso direito seja transformado em assistência. Não queremos que a luta que fizemos nas ruas acabe dando lucro pros mesmos empresários sacanas que nos impedem de ir e vir.
O que queremos é PASSE LIVRE SEM LIMITES:
ir e voltar, mudar de direção, mudar de idéia. Queremos um passe livre que nos deixe caminhar por aí, que entenda a cidade como um espaço educativo.
E queremos que esse passe livre seja para TODO MUNDO:
porque ele não é uma caridade do governo ou dos tubarões dos transportes. Porque ele não é um favor. Ele é um direito que conquistamos. E conquistamos não apenas para podermos ir e vir, mas porque acreditamos que transporte não é uma mercadoria, mas um bem essencial.
O que queremos é que o passe livre signifique REDUÇÃO IMEDIATA DAS PASSAGENS. Porque se antes xs usuárixs pagavam 2 terços da nossa passagem, agora que o recurso público paga tudo a tarifa TEM que abaixar. Queremos isso agora.
E queremos mais. Queremos ultrapassar o PASSE LIVRE. Queremos que o direito de ir e vir seja de todxs. Queremos que o transporte seja público de verdade, seja um direito. Para isso, queremos TARIFA ZERO: que não tenha mais catraca, que não tenha mais passagem. Que o transporte seja pago pelos impostos dos mais ricos (aqueles com 10 carros na garagem). Que o transporte não seja pra encher o bolso de ninguém.
Queremos que nós, que usamos o transporte e que trabalhamos nele, sejamos as pessoas que decidirão quantas linhas vão para que lugares e a que horas. Queremos o fim da Difícil. Queremos decidir sobre como funcionará o transporte, essa questão fundamental das nossas vidas, que hoje é decidida por quem anda de helicóptero.
Queremos uma cidade que não gira em torno do dinheiro, da exploração, da opressão. Queremos uma cidade onde possamos caminhar, opinar, destruir e construir. Queremos uma cidade de todxs, e não de poucos como é hoje. Queremos, e estamos construindo, uma cidade vinda de baixo.

Achem que não faz sentido, nos chamem de loucxs. Vocês já fizeram isso antes, e olha só onde estamos agora. Talvez nossos mais belos sonhos sejam seus piores pesadelos...

Movimento Passe Livre -DF.

Manifestação pela ampliação do Passe Livre. rumo a tarifa Zero!
Dia 09 de Junho, as 18h, na Rodô

Vídeo "Que Passe!"

Vídeo sobre a trajetória de lutas sobre o passe livre no Df.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Carta aberta e convocação para protesto.

O Tribunal do Júri de Brasília submeterá a julgamento no próximo dia 11/02 – quinta-feira Leonardo Luiz da Costaque, em 19 de agosto de 2006, atropelou e matou na faixa central do Eixão Sul o biólogo e ciclista Pedro Davison. O condutor, que dirigia seu veículo com total desrespeito à vida, em altíssima velocidade e em local proibido ao trânsito de veículos automotores, tinha sua habilitação vencida, consumia bebida alcoólica no momento do crime, não freou, não procurou evitar a morte, não prestou socorro e se evadiu.
É importante que nos manifestemos em defesa da vida e do respeito às leis, por um basta a essa violência e pelo fim da impunidade que permite que irresponsáveis permaneçam nas ruas destruindo vidas e dilacerando tantas famílias.
Fazemos convite para sua participação em manifestação que realizaremos no dia 11 de fevereiro em frente ao Tribunal de Justiça do DF, data do julgamento, às 7h, horário da chegada dos jurados e dos senhores juízes.
Sua presença é importante para que expressemos que é inaceitável que tais crimes permaneçam impunes. Não deixe de comparecer e mostrar que Brasília defende a paz no trânsito, a condução responsável e o fim da impunidade dos crimes cometidos nas vias do Distrito Federal.
Vamos mostrar que queremos justiça e a condenação do réu. Mostrar que Brasília não aceita mais que casos dessa natureza sejam equivocadamente tratados como mero acidente. Vamos manifestar nosso desejo de mudança desse paradigma e confirmar uma nova jurisprudência de condenação dos que não respeitam as leis, desconsideram a vida e assumem se tornarem criminosos no trânsito.
Seremos gratos pelo seu apoio e presença.
Brasília, 06 de fevereiro de 2010.
Beth e Persio Davison
DATA: 11/02/2010 – 07h
LOCAL: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS - TJDFT
Fórum Milton Sebastião Barbosa, Anexo “B”(em frente ao estacionamento)
Brasília - DF

Fonte: http://bsb-in-transitu.blogspot.com/

Tarifazero.org

Esta disponível um site nacional especificamente para outro direito que nos é negligenciado. Nosso novo sonho.
Nossa nova luta.
Nosso novo futuro possível.Para conhecer e acompanhar:

http://www.tarifazero.org/

quinta-feira, agosto 13, 2009

População vetada

O que está acontecendo nesse momento no Distrito Federal é o retrato exato do que é um transporte coletivo tratado como mercadoria e da discriminação e exclusão com quem não mora no Plano Piloto.
O governador Urtiga em sua tentativa desesperada de melhorar sua imagem com a população resolveu utilizar o passe livre, junto com seu vice para campanha eleitoral, já que 2010 vêm aí, mas campanhas precisam de financiamento de empresári@s e a máfia dos transportes continua com sua troca de favores.
Como o passe livre será custeado pelo governo, @s empresári@s não terão mais este “gasto”, portanto poderiam abaixar o preço das passagens, mas o que se viu foram aumentos de proporções astronômicas em tempo recorde. Primeiro o metrô e o micro ônibus com 50% de aumento de uma só vez e agora Águas lindas e Planaltina de Goiás estão praticamente inacessíveis com passagens que chegam a R$ 4,25. (Essa emenda de redução de tarifa sequer foi citada na câmara).
@s portador@s de necessidades especiais deveriam andar gratuitamente nos ônibus, sem precisar passar na catraca, el@s têm esse direito, mas o Urtiga fez questão de fazer com que el@s também se tornassem fonte de lucro, aproveitando uma brecha da lei. Agora o governo vai pagar a@s empresári@s essa conta também.
Foi impressionante observar que o governador não fez a menor questão de esconder sua perseguição política em relação ao MPL. De todas as entidades mencionadas apenas nós fomos vetad@s da comissão dos transportes coletivos do DF, o único movimento social feito pela comunidade. O governo sempre teve essa política de não ouvir os interesses da população antes de tomar suas decisões, o que vai totalmente contra o que seria a gestão de um transporte público ideal, mas não acreditamos em um espaço dividido com eles, a gestão de transportes que queremos que é feita pela população e para a população não se encaixa nesse teatro de democracia que eles fazem de vez em quando em audiências e comissões para depois não levar nada em conta, mesmo que se não fossemos vetados provavelmente não participaríamos desta comissão, a não ser com um cunho fiscalizatório. Nossa preocupação é com a perseguição política tão veemente e fascista com movimentos sociais, não sabemos o que poderá vir pela frente.
Registramos aqui, nossa denúncia!
O transporte público é um direito básico garantido pela constituição, assim como o direito de ir e vir. O transporte coletivo deve ser pago através dos impostos, como todo direito. O governo não só tem dinheiro para bancar bons salários, cesta básica, ticket alimentação e diminuir as horas de trabalho, inclusive gerando mais empregos, como o tem também para manter toda uma frota de ônibus confortáveis, menos poluentes, que passam a qualquer hora do dia para qualquer lugar e gratuito. Isso não será possível enquanto o direito de ir vir for comercializado, enquanto houver interesses econômicos por trás.
Distância, não se mede através de quilômetros e sim através de realidade social. O plano piloto depende da força de trabalho do entorno para funcionar e @s trabalhador@s dos empregos oferecidos. Dentro dessa realidade a “distancia existente” entre o entorno, Planaltina e Águas lindas do goiás por exemplo, é uma distancia virtual, que agora passa a ser real com a exclusão causada pelo aumento das tarifas, fazendo com que centenas de trabalhador@s percam seus empregos porque seus(suas) patrõ@s não podem pagar o preço altíssimo das passagens e fiquem isolados sem perspectiva de futuro.
Argumentos como o de que “estava no contrato” o aumento de tarifas e o transporte sendo usado contra a população é inaceitável. Queremos agora o fim das concessões para as empresas, queremos um transporte gerido e financiado totalmente pelo estado visando o bem estar da população. Queremos a população do centro e do entorno tendo o direito à cidade, não só para trabalhar, mas para usufruir de seu lazer, trabalhador@s sendo tratad@s com dignidade e tarifas gratuitas não só para esse ou aquele grupo de pessoas, mas para tod@s! pago através dos impostos.
Todo nosso apoio às revoltas do entorno e d@s trabalhador@s, estamos com vocês!
transporte é um direito, Tarifa Zero já!

segunda-feira, julho 13, 2009

5 anos da revolta da Catraca: Construir a Memória da Resistência em Florianópolis"- veja os registros

Veja as discussões que ocorreram no encontro "5 anos da Revolta da Catraca: Construir a Memória da Resistência em Florianópolis", realizado entre os dias 26 de Junho e 03 de Julho.

26 de Junho, "O que é, e qual é a realidade da mobilidade urbana?" • As cidades contemporâneas: as reformas urbanas do século XX e segregação sócio-espacial em Florianópolis (Vinícius Possebon, historiador) • A cor da cidade: mobilidade urbana e segregação espacial em uma cidade de espaços racialmente marcados (Paíque, antropólogo e militante do Movimento Passe Livre – DF). • Privatização do transporte: O regime de concessões e a consolidação da sociedade do automóvel (Marcelo Pomar, historiador e militante do MPL Floripa)
27 de Junho, "O que propomos em relação à mobilidade urbana? O Direito à cidade"• Experiência da Cidade de São Paulo (Lúcio Gregori, ex-secretário Municipal de Transportes em São Paulo, autor do Projeto Tarifa Zero e da Municipalização dos Transportes na capital paulista) • Lutas sociais pelo transporte (Victor Calejon “Khaled”, militante do MPL Floripa) • A posição dos ciclousuários (André Geraldo Soares, Viaciclo)
27 de Junho, "Transporte Coletivo Urbano em Florianópolis: Trajetória histórica e momento político"
• Werner Krauss (Centro Tecnológico da UFSC) • Ricardo Freitas (Sintraturb)
29 de Junho, "Construindo a Memória da Resistência: Visões sobre a Revolta - Reflexões a partir dos Olhares dos Participantes" • Marcelo Pomar (historiador e militante do MPL Floripa) • Carolina Cruz, “Cabelo”, Thiago Umberto “Garganta”, Mayara Pires (estudantes secundaristas na época da revolta) • Denílson Machado (ex-diretor do SEEB e integrante do Fórum em Defesa do Transporte Coletivo na Grande Florianópolis) • Daniel Guimarães (jornalista, co-fundador do Centro de Mídia Independente em Florianópolis e militante do MPL Floripa) • Rafael Knabben (cientista social)
30 de Junho, "Análise de Conjuntura da Florianópolis Atual" • Lino Bragança Peres (Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC)• Elson Manoel Pereira (Professor do Departamento de Geografia da UFSC)
01 de Julho, "Revoltas Antes da “Revolta” – Breve História das Contestações Políticas em Florianópolis" • Da Anistia à ditadura militar no estado de Santa Catarina (Prudente Mello, advogado, presidente da Comissão de Direitos Humanos durante as revoltas) • Política em Florianópolis da Novembrada até hoje (Reinaldo Lohn, professor do departamento de História da Udesc) • Lutas urbanas na planície do Campeche (Tereza Cristina Barbosa, bióloga, membro do Movimento Campeche Qualidade de Vida)
2 de Julho, "Movimentos Políticos Juvenis Ontem e Hoje" • Movimentos políticos juvenis: uma abordagem panorâmica (Janice Tirelli, professora do departamento de Sociologia Política da UFSC e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Juventudes Contemporâneas)• Revoltas juvenis na França: de 68 a 2005 (Luís Antônio Groppo, sociólogo, professor do programa de Mestrado em Educação do Centro Universitário Salesiano de São Paulo e pesquisador do CNPq) • Herbert Marcuse e a grande recusa hoje (Isabel Loureiro, professora colaboradora no programa de Pós-graduação em Política da UNICAMP)
3 de Julho, "Influência das Revoltas nas Lutas pelo Transporte Brasil Afora". Representantes do MPL-SP, MPL-DF e MPL Joinville

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A cidade e os sonhos: Por uma vida sem catracas

(Texto publicado no Jornal Passe, livre, sem limites -01)
Maria Paiva Lins

Quando a gente pensa em uma cidade, a imagem é clara: luzes, barulhos, prédios altos, movimento incessante de carros, máquinas e, às vezes,pessoas. Dá pra imaginar uma cidade, com toda carga histórica que esse termo carrega, que seja diferente disso?

Muitas vezes, minha experiência cotidiana me diz que não. Andar na cidade parece um desafio constante a tantas idéias grandes, coisas imensas, bem maiores do que eu. Andar e viver na cidade é um eterno jogo de estratégias, de melhores caminhos, pelo simples fato de eu ser mulher em uma sociedade machista. Uma grande partida de batalha naval, por eu ser pedestre e ciclista. Ou uma corrida incessante de fórmula 1, uma fórmula 1 engarrafada, se estou motorista. Uma sucessão de portas e janelas fechadas, se eu fosse negra (e, portanto, uma sucessão de portas e janelas abertas por eu ser branca). Andar na cidade nem é possível se eu não tiver dinheiro para a passagem.

Tudo isso transferido ao cenário melancólico de Brasília, e as coisas se tornam mais desesperadoras. Grandes espaços vazios, prédios bonitos, concreto branco por todos os lados, monumentos, a cidade-maquete resultado de um projeto modernista de exclusão, a cidade-maquete do apartheid social,. A cidade-maquete da centralização: todos os serviços “de qualidade”, os lazeres, os empregos, as quadras de futebol, as árvores, os parquinhos, estão no plano. O campo de concentração às avessas, como dizemos dentro do Movimento, já que todo mundo é obrigado a permanecer dentro das cidades- “satélites”, ao redor do “plano piloto'. As cidades satélites, tão parte do planejamento como a Brasília, capital da esperança.

Para a maioria das pessoas, entre percorrer esses espaços e apenas ouvir falar deles, existe uma distância significativa: a tarifa do ônibus, do metrô, do microônibus. Uma distância absurda.Uma distância, muitas vezes, insuperável. Isso quer dizer que, mesmo que Brasília fosse um espaço mais bacana, muita gente não poderia desfrutar dela, como de fato não o pode hoje.

Aí a gente vê que, pra cidade funcionar, a gente depende de transporte pra tudo. Pra ir pra escola, pro hospital, pro cinema, pro show da esplanada, pro trabalho. Aí a gente vê que, se a gente paga na hora de passar pela catraca, então a gente paga pra ir pra escola, mesmo que ela seja pública. Que a gente paga pra ir pro hospital, mesmo que ele seja público...

O argumento para a aprovação do passe livre estudantil, passa a ser, então, bastante óbvio: estudante não ganha dinheiro e precisa estudar. Se a gente precisa pagar o transporte, a escola deixa de ser pública e então esse direito básico deixa de ser respeitado. Educação e transporte andam aí juntos, inseparáveis.

Era nesse argumento que eu pensava quando entrei, no final de 2004, naquilo que na época se chamava Comitê Autônomo de luta Pelo Passe Livre e que hoje se chama Movimento Passe Livre -DF. Nessa época, por estranho que pareça hoje, essa proposta parecia uma loucura: “nunca vai dar certo”, “eu também quero tudo de graça, mas temos que trabalhar ” (essa é do Presidente Lula), “passe livre tem que ser só pra quem não tem dinheiro”, etc e tal. Mesmo que fosse já uma bandeira histórica do movimento estudantil, muita gente parecia não levá-la a sério e, principalmente, muita gente parecia achar impossível que ela se realizasse. Eu, particularmente, não a achava impossível... mas parecia muito, muito distante.

Agora, frente a frente como estamos com a aprovação do Passe Livre, as dúvidas, e as reflexões são outras.

Tudo isso me diz, antes de mais nada que, sim, dá pra imaginar uma cidade diferente. Dá pra imaginar uma cidade que não seja permeada por auto-pistas, da pra imaginar uma cidade que seja das e dos ciclistas, das e dos pedestres, uma cidade na qual eu possa caminhar livremente. Dá pra imaginar tudo isso porque o Passe Livre só tá aí pautado hoje pelos setores mais surreais da sociedade porque ele esteve em bandeiras, debates, faixas em órgãos ocupado, discussões. A primeira coisa que esse processo me diz, portanto, é que na luta pelo passe livre estudantil nós tomamos a força um dos pontos principais do que chamamos de Direito a Cidade: o direito de transformar esse espaço, de modificá-lo, de lutar pelos nossos desejos e necessidades.

Ao longo deste tempo, outras coisas começaram a fazer sentido pra gente: não é só uma questão de ir para a escola. Ou para o hospital. é questão de ir para onde quisermos. é questão de poder ir, voltar, mudar de idéia no meio do caminho, trocar de ônibus. é questão de poder pegar um grande circular e descer no mesmo ponto de partida, pela simples vontade de aproveitar o caminho pra pensar na vida. Porque o que faz sentido hoje é que o meu, o seu, o nosso direito de ir e vir seja irrestrito, incontrolável, ingovernável. Que ele não dependa de catraca ou de fronteiras.

É aí que o transporte deixou de ser visto por nós como um meio de acesso para bens essenciais, e passou a ser, ele mesmo, um direito. O direito, puro e simples, de me locomover. Ora, se a Cidade é nossa (e nós partimos desse pressuposto), então temos que poder andar para onde quisermos, na hora que quisermos.

Nossos desejos e bandeiras de luta dão então um salto. Um salto enorme, mas bastante lógico. Ninguém deve pagar a tarifa, porque direito não se compra como mercadoria. Como tudo mais que atualmente consideramos como direito, o transporte deve ser pago pelos impostos, e pelos impostos dos mais ricos, para funcionar como distribuição de renda. Aquilo que já falávamos lá por 2004, passou a ter mais sentido: o transporte beneficia a sociedade como um todo e assim não faz sentido que quem o usa pague por ele.

O nome dessa nova bandeira é simples: Tarifa Zero. Uma proposta feita pelo ex-secretário de transporte de São Paulo, Lúcio Gregori, em 1991-2, que chegou a ser implementada em um bairro da grande São Paulo. O governo passaria a fretar os ônibus das atuais empresas de transporte e então elas deixariam de ter qualquer coisa a ver com a passagem de ônibus. O serviço de transportes passaria a ser, portanto, um serviço público de fato.

Assim como o Passe Livre Estudantil, a Tarifa Zero também é vista como uma loucura. De “uso abusivo dos transportes” (essa é do Fidel Castro), “vagabundos e bebados desocupados invadindo os ônibus”, “tudo que é de graça é degradado pela população e isso vai piorar a frota dos ônibus”(como se ela fosse ótima agora que é paga), até “não adianta deixar o transporte gratuito, temos que lutar para que cada família possa pagar pelo transporte”, escutamos de tudo. Todos questionamentos que parecem estranhos quando enxergamos o transporte como um direito.

Assim como o Passe Livre Estudantil, a Tarifa Zero é uma proposta em construção, uma construção cotidiana feita na e pela luta. Nós mesmxs, que hoje levantamos essa bandeira, temos questões a responder, dúvidas em como aplicá-la. Esse não é um problema. Nunca nos propusemos a ser um grupo com respostas prontas para os problemas que vivemos, sempre nos preocupamos em caminhar perguntando por onde ir. Daqui a alguns anos, quando quem sabe estivermos acompanhando a votação da Tarifa Zero, a nossa discussão também vai ser outra.

Assim como o Passe Livre Estudantil, a Tarifa zero não resolve o problema da Cidade. Ela é um caminho, é a abertura de novas possibilidades, um passo a mais na vida sem catracas que queremos construir.

Como qualquer outra medida que não imploda o capitalismo, o machismo, o racismo, o especismo, e outras tantas opressões, ela é insuficiente. Isso não a torna, no entanto, uma proposta paliativa. Ela não é paliativa porque a reivindicamos a partir da concepção de que essa cidade é nossa, e que podemos caminhar por ela, transforma-la, geri-la. Não é paliativa porque conquistá-la depende de todo um processo de luta na qual a horizontalidade, o anticapitalismo, o anti-racismo, o feminismo, fazem parte do cotidiano.

A minha cidade ideal está muito, muito distante do que vejo e sinto hoje. E, por gigantes que todas essas estruturas pareçam, elas não são maiores do que o direito que move o mundo desde muito tempo: o de lutar pelas mudanças, o de combater as opressões, o de resistir. É apenas essa força que me faz ver o mundo como ele funciona e não querer desistir dele.